Abaixo o Ensino de Física no Ensino Médio!

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"A Física deve ser ensinada e aprendida, portanto, por causa de sua fascinação hipnótica, pela ilusão que infunde nos seus praticantes de que, se dominarem algumas leis da natureza, adquirem com isto condições para dominar o todo da vida humana." André A. Abramczuk, Ex-professor de Física da UFPR.

"Alguém poderá dizer que o muito estudar me deixou louco e que agora estou falando contra mim mesmo, uma vez que vivo do Ensino de Física para o Ensino Médio; no entanto, essa idéia vem já há algum tempo proliferando em minha mente, e somente agora pude perceber o quanto sou contra ensinar Física, simplesmente, neste nível da educação de nossos jovens... Talvez o termo "contra" acabe por denotar algum sensacionalismo, mas a lógica exata segue abaixo.", Física Real.

Ensinar pra quê?
Por
Flávio E. Souza da Cunha.

Esta pergunta pode parecer medíocre para muitos professores, principalmente àqueles mais especializados nas assim denominadas ciências da educação. Assim julga-se porque nascemos numa sociedade onde o conhecimento adquiriu o seu valor há muito tempo, e questionar sua transmissão soa como loucura. Mas como começou isso tudo?

Muitos filósofos, sociólogos e historiadores já tentaram descrever como se desenvolveu a atual estruturação do conhecimento e sua transmissão que, em nossa sociedade, ocorre nas escolas. Engels, por exemplo, retorna à sociedade primitiva e relaciona o acúmulo do conhecimento ao domínio das técnicas de produção; assim, em sua descrição antropológica, o conhecimento possibilita o domínio dos meios de produção, concedido à minoria da população, que controla a sociedade. Já o domínio das técnicas de produção, conhecimento que deve ser repassado de geração em geração, permanece com a maioria da população. A conseqüência dessa dicotomia é a alienação daqueles que ficam apenas com a parte do conhecimento que diz respeito às técnicas. A esses não é permitido crescer, criar ou desenvolver. Desde que Taylor lançou os fundamentos da produção em série, o conhecimento tem sido tratado como parte do treinamento da população para adentrar o universo capitalista moderno.

Historicamente vemos que nossa cultura herdou dos antigos gregos a noção de ciência. Aqueles, admirados e obcecados em compreender a Natureza, o Universo Interior e Exterior, tratavam o conhecimento como o alimento dos deuses que, se devidamente sorvido pelos fracos seres humanos, concederia a estes um crescimento como o daqueles. Assim, cedo aprenderam a repudiar o trabalho físico que, uma vez que possibilitava apenas exercitar os perecíveis músculos mortais, não servia para a eternidade da alma; e esta, portanto, só poderia crescer mediante o freqüente exercício da mente nas mais insólitas viagens da imaginação... Não foi à toa que foram dos gregos que tomamos a palavra “trabalho”, que para eles nada mais era que uma máquina de tortura [1]. Foi assim que surgiram as primeiras especulações acerca do movimento dos astros e da estrutura da matéria; assim é que hoje temos teorias como a atômica (que deu origem à energia nuclear) e a noção de buracos negros existentes nos distantes algures de nosso Universo.

Mas não faz mais que 400 anos que a classe dos burgueses exigiu a escola para si também. No entanto, na época em que isso ocorreu esta era a classe oprimida que chacoalhava do jugo da classe dominante. O problema começou a acontecer quando esta classe se tornou a dominante e a escola conquistada, que antes servia às necessidades da maioria, passou a servir às necessidades exclusivas da atual burguesia e o proletariado, agora em maior número, permaneceu às escuras. Assim é que hoje temos um verdadeiro campo de batalha nas escolas, e estas mais se parecem com as linhas de produção em série de Ford do que com o ambiente acadêmico onde o conhecimento é desenvolvido tanto por alunos quanto por professores.

Temos aí, portanto, três linhas descritivas do desenvolvimento do conhecimento (seu acúmulo e transmissão), tal como o conhecemos hoje e todas as três mostram a tendência que este tem de servir sempre à minoria que domina desfavoravelmente à maioria. Assim é que tornamos à velha pergunta que se manifesta sempre na cabeça dos professores novatos que, cheios de ideais profissionais, adentram no Universo complexo e multifacetado da docência: ensinar para quê?

Pensássemos como os gregos e diríamos que ensinamos simplesmente porque o conhecimento enobrece a alma, e é digno de honra aquele que o busca; o dever do professor passa a ser ensinar não apenas o conhecimento, mas tal postura aos alunos. Daí a guerra. Os professores tentam ensinar uma atitude através de procedimentos. Isso já seria difícil de fazer tentando através de conceitos - quanto mais difícil será por procedimentos vazios e sem sentido para a vida. Raras vezes encontramos aqueles alunos que, por algum motivo em sua história particular de vida, têm esta sede de conhecimento que os professores desejariam existisse em todos, mas estes representam cerca de 1 caso em 20.

Ou seguíssemos a linha de raciocínio que implantou a escola em nossa sociedade, e deveríamos todos desejar que todas as escolas fossem técnicas, para melhor inserir os alunos no mercado de trabalho, como dóceis e domesticados trabalhadores capazes de carregar suas pesadas cargas sem reclamar.

Quanto a mim, repudio ambas as linhas de pensamento. Não quero herdar aquela postura dos gregos - afinal, quem eram eles? Donos e opressores de escravos, tinham uma noção deturpada do trabalho... Por que eu deveria aceitar algum conceito que viesse deles? É certo que todo o “progresso” e desenvolvimento tecnológico obtido pelas gerações atuais foram graças a eles. Mas foi o melhor caminho escolhido? Não haveria um melhor onde fossem evitados também toda a morte e aviltamento do ser humano como tem ocorrido desde a Revolução Industrial, obra mestra da ciência ocidental?

Por isso quero propor um novo ensino, que reúna o que há da mais radical em todas as mudanças ocorridas na Educação até então. Mas nem o que é radical é bom ou positivo; Hitler foi extremamente radical, por exemplo. Mas Jesus também foi radical, e ambos seguiram cominhos opostos. Ou seja, podemos ser radicais em educação e melhorá-la ainda assim; aliás, devemos ser radicais ou não vamos mudar nada.

Como professor de Física para o Ensino Médio, quero exemplificar com esta disciplina.

Lembro-me bem quando dei aulas pela primeira vez, não faz muito tempo - em 1998, numa escola pública noturna -, e vi-me, certa noite, corroído pela questão principal deste ensaio. A matéria que acabara de ensinar era termodinâmica, e o tópico eram as transformações gasosas; mais especificamente, naquela noite eu “ensinara” como calcular o trabalho realizado por um gás em expansão... De repente olhei para a classe, aqueles jovens cansados do trabalho, sem os requisitos matemáticos necessários para compreender do que se tratava e sem a motivação necessária; por que, afinal de contas, tinham que aprender aquilo? Que lhes importava o trabalho realizado por um gás em expansão? Então me senti estuprando-lhes a consciência; e mesmo aqueles dois ou três alunos mais capacitados, que se esforçavam para fazer os exercícios, de repente se me tornaram vãos, vazios.

Foi necessário todo o tempo transcorrido até então, e várias tentativas frustradas ou mais ou menos frustradas, para que eu fosse gradualmente formulando um remédio para aquela situação que me fez repensar o por quê de ser professor - essa questão tão desprezada por muitos mestres e doutores, mas que ninguém se presta a respondê-la devidamente.

A Física representa, para a ciência, uma espécie de referencial do bem-sucedido método científico; afinal a prática experimental se tornou ilustre com grandes mestres tais como Galileu e Newton, que são considerados os patriarcas da Física. Sendo assim, ensiná-la e aprendê-la deveria ser considerado uma grande honra, porque tudo o que temos e nos rodeia vem da Física: a luz, o computador, as máquinas, os automóveis, etc. A Química desenvolveu-se a partir dos princípios físicos, e muito da Biologia tem suas bases fundamentadas sobre a Física; se estas são as ciências básicas, então é justo dizer que a Física é o fundamento de todas as ciências. Ensinar Física, por si só, parece ser, portanto, algo que tem valor intrínseco, assim como tem valor, para a humanidade o conhecimento geral. Logo, a resposta parece ser a mesma: por que ensinar Língua Portuguesa, ou por que ensinar Matemática? São conhecimentos adquiridos pela humanidade e devem ser mantidos.

No entanto, não se pode comparar a postura que os alunos têm para estudar Língua Portuguesa e a postura que têm ao estudar Física. Não se pode questionar, no caso da Língua Portuguesa: “por que vou estudar isso?” pois ao perguntar, se está respondendo: a comunicação clara e precisa. O mesmo não se dá em relação à Física. Os alunos vivem a perguntar: onde vou aplicar isso? Para quê devo aprender isso? E se o professor se puser a explicar o exposto acima, a respeito da postura que se deve ter diante do conhecimento adquirido pela humanidade, somente obterá suspiros de lamentos. Ou o professor pode usar exemplos: olhe as lâmpadas, a TV, os computadores - tudo é devido ao desenvolvimento da Física. Mas a isso o aluno responderá: “e daí, não pretendo trabalhar com essas coisas, nem fabricá-las”. E ainda que essa resposta seja imatura e inconseqüente, parece ter a maior lógica do mundo ao jovem que, a partir disso, se fecha ao conhecimento. E que trabalho o professor terá para mudar tal postura! Se é que é possível fazê-lo.

De fato, o objetivo do professor de Física, Química ou Biologia não é ensinar a resolver exercícios ou procedimentos vazios. O objetivo original é ensinar a compreender e analisar os fenômenos naturais a partir dos conceitos daquelas ciências. Mas para conseguí-lo, criou-se a seguinte técnica:

E isso repetidamente, para todos os tópicos. Assim o objetivo original se perdeu nos exercícios, e passou a ser os próprios exercícios. Hoje os professores de física ensinam como resolver exercícios de bloquinhos empurrando bloquinhos, ou bloquinhos pendurados em outros que arrastam outros; corpos de caem de alturas de 45m sem resistência do ar, aviões que jogam objetos de 3km de altura ainda sem resistência com o ar, cargas elétricas voadoras que penetram em regiões com campos elétricos ou magnéticos e passam a girar, ou objetos que deslizam sobre superfícies inclinadas sem qualquer atrito. Tudo isso tem seu lugar quando o objetivo é ensinar a analisar os fenômenos naturais. Mas será que o tempo do curso de Física para o Ensino Médio permite isso?

Nas faculdades de Física, o aluno é levado a abstrair desses problemas para problemas reais, com uma matemática avançada, e novos conceitos de Física; é levado a aplicar a teoria à prática, com os devidos cálculos dos erros sistemáticos e suas causas. Mas isso passa longe do Ensino Médio... Se estivéssemos preparando todos a fazer faculdade de Física, seria justo ensinar os procedimentos mencionados no último parágrafo, mas em quase a totalidade dos casos, o Ensino Médio será o último lugar onde o aluno aprenderá Física, exceto naqueles colégios técnicos, onde a maioria parte para cursos das exatas.

Assim, o curso de Física para o Ensino Médio tal como temos hoje é algo inacabado e permanece inacabado para a maioria dos alunos. Isso porque pretende ensinar a Física pela Física, pelo valor que ela tem por si só, e não chega a fazê-lo; para que isso fosse possível, deveria ter duração de pelo menos mais dois ou três anos e isso é obviamente inviável. Logo, ensinar Física no Ensino Médio não tem sentido. Assim como também não o tem ensinar Química ou Biologia. Não me arrisco a dizer das humanas, tal como Geografia e História, mas pretendo que as coisas que esboço aqui se apliquem indiscriminadamente, feitas as devidas adequações.

O aluno de Ensino Médio não precisa aprender A Física; precisa aprender as aplicações da Física em seu mundo, para compreender os fenômenos, e controlá-los melhor, para seu benefício, se isso for possível. O mesmo com relação à Química e à Biologia. Isso é feito em parte, quando os professores bondosos aplicam os conceitos para o dia-a-dia, em forma de exemplos; mas isso geralmente é rápido e abafado pela necessidade cega de cumprir o currículo frio e seco, com as toneladas de exercícios irreais, cujo objetivo era ensinar A Ciência. E muito se tem estimulado os professores a relacionar suas disciplinas com o dia-a-dia desde os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN’s). No entanto, o objetivo não mudou: continua sendo ensinar A Disciplina! Pois o objetivo deve sofrer uma mudança radical, então poderemos ter um ensino efetivo nas escolas novamente.

Proponho mudar o nome da disciplina; no lugar de Física, colocaremos: Análises Físicas da nossa Sociedade [2]. Pode até ser que, para enxugar as frases, os alunos continuem chamando de “Física”. Mas o nome ajudará o professor a se conscientizar que não está a ensinar Física, simplesmente, mas sim suas aplicações. Os exercícios mencionados acima perdem o seu lugar para discussões sobre os problemas reais da nossa sociedade; os procedimentos vazios perdem o lugar para análises críticas de situações, com a aplicação dos conceitos da Física. A história da física passa a ser necessária para se compreender a relação do conceito com a necessidade do mundo real, e a importância do conhecimento enquanto aquisição humana. A tabela abaixo sugere as alterações dos conteúdos do 1º ano do Ensino Médio com as quais sonho.

Conteúdo de FísicaConteúdo de Análises Físicas da nossa Sociedade (os temas entre parênteses são conceitos extras ao conteúdo principal relacionado pela coluna esquerda).
Cinemática.
  • Velocidade e aceleração.
  • Movimento Uniforme.
  • Movimento Acelerado.
  • Lançamentos verticais, horizontais e oblíquos.
  • Gráficos do Movimento Uniforme e do Acelerado.
Veículos e Trânsito.
  • Estimativas de tempos, distância e velocidades em viagens.
  • Velocidades máximas dos veículos (cinto de segurança, deslizamentos em curvas - leis de Newton).
  • Dispositivos para controle de velocidade (“radar”) - ética.
  • Leis de velocidades máximas.
  • Acelerações dos veículos, leis de impostos sobre potência (consumo de combustível, energia).
  • Ética dos motoristas com respeito à velocidade e acelerações.
  • Casos de atropelamentos: causas.
Dinâmica.
  • Leis de Newton.
  • Aplicações ao equilíbrio de corpos extensos e partículas.
  • Torque.
  • Atrito estático e dinâmico.
Ciência e Religião.
  • História das Leis de Newton - o homem, a época.
  • Aplicações conceituais das leis de Newton ao cotidiano: andar, empurrar, puxar, planetas girando (gravidade), elétrons ao redor dos núcleos (química).
  • O determinismo científico versus a casualidade (física quântica).
  • A ordem do Universo, a existência de Deus.
Energia, potência e trabalho.
  • Energia cinética, gravitacional e elástica.
  • Trabalho.
  • Potência.
  • Conservação de Energia.
Produção e consumo de Energia pelo homem.
  • Fontes de energia: eólica, pluvial, fluvial, hidrelétricas, etc.
  • Vantagens e desvantagens de cada fonte.
  • Potência dos aparelhos, cálculo da energia consumida.
  • Preço da energia (combustíveis).
  • Planta energética brasileira.

Claro que para efetuá-las, o professor deverá se aprofundar no conhecimento de diversas outras disciplinas, tal como história, geografia, legislação, filosofia, religião, física quântica, biologia, engenharia, mecânica de automóveis, elétrica residencial, etc. Essa é a verdadeira interdisciplinaridade - e não apenas o trabalho conjunto de dois ou três professores sobre o mesmo tema. Como cita Abramczuk: “a especialização é para os insetos”.

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Referências:
[1] De fato, a palavra trabalho vem do grego, trapallium, que nomeia uma máquina de tortura usada para punir prisioneiros e escravos.
[2] O mesmo para as outras ciências: Análises Químicas da nossa Sociedade e Análises Biológicas da nossa Sociedade.
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Bibliografia

André Ambrósio Abramczuk, O Mito da Ciência Moderna - Proposta de análise da Física como base de Ideologia totalitária, Cortez Editora/Autores Associados, 1981.

Outros textos serão em breve referidos. Qualquer urgência, contate-me.




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